1. O que é bruxismo
O bruxismo é um distúrbio do sistema nervoso central caracterizado por movimentos involuntários da mandíbula — principalmente o ranger e o apertar dos dentes — que ocorrem de forma repetitiva e inconsciente, na maioria das vezes durante o sono.
Estima-se que o bruxismo afete entre 8% e 31% da população adulta, com variações significativas conforme a faixa etária e os critérios diagnósticos utilizados. Para 80% dos pacientes, a atividade muscular noturna é imperceptível — a pessoa só descobre que tem bruxismo quando o dentista observa o desgaste dentário ou quando o parceiro relata o ranger audível durante a madrugada.
Existem dois tipos principais:
- Bruxismo do sono (noturno): ocorre durante o sono, geralmente associado a microdespertares. É o mais comum e o que mais impacta a musculatura cervical, pois a hiperatividade se sustenta por horas seguidas sem controle consciente.
- Bruxismo em vigília (diurno): ocorre durante o dia, geralmente como resposta ao estresse ou concentração intensa. Predomina o apertamento — sem o ranger característico da versão noturna.
Multicausal por definição: A literatura científica classifica o bruxismo como uma condição de etiologia multifatorial — estresse e ansiedade, alterações do sono, uso de certos medicamentos, fatores genéticos, oclusão dentária inadequada e alterações neurológicas são todos citados como fatores contribuintes. Nenhuma causa única é suficiente para explicar todos os casos.
2. O sistema crânio-cérvico-mandibular: por que mandíbula e coluna são a mesma coisa
Para entender como o bruxismo afeta a coluna vertebral, é preciso conhecer um conceito fundamental da anatomia funcional: o Sistema Crânio-Cérvico-Mandibular (CCCM).
Esse sistema integra a articulação temporomandibular (ATM), os músculos da mastigação, o osso hióide, a musculatura cervical e a coluna vertebral em uma cadeia biomecânica e neurológica contínua. Não se trata de estruturas separadas que casualmente ficam próximas — elas funcionam em sincronia, influenciando umas às outras o tempo todo.
A chave dessa integração é o osso hióide — um osso em forma de ferradura localizado na base da língua, que não se articula diretamente com nenhum outro osso do esqueleto. Ele fica suspenso por músculos acima (que o conectam à mandíbula e ao crânio) e abaixo (que o conectam à laringe e ao esterno). O hióide funciona como um pivô biomecânico entre a mandíbula e o pescoço — qualquer tensão que vem da mandíbula passa obrigatoriamente por ele antes de chegar à coluna cervical.
A posição correta da cabeça no espaço depende de três planos simultâneos: o plano visual, o plano oclusal transverso e o plano auriconasal — mantidos em equilíbrio através de mecanorreceptores nos primeiros seis segmentos da coluna cervical. Qualquer alteração na mandíbula afeta esse equilíbrio.
“O fisioterapeuta não pode tratar a coluna cervical sem relacioná-la com a ATM — e o dentista precisa entender que uma alteração na mandíbula pode levar a mudanças na postura do pescoço e de todo o corpo. São estruturas integradas, não separadas.”
— Consenso da literatura científica sobre o sistema crânio-cérvico-mandibular
3. Como o bruxismo afeta a coluna vertebral: a cadeia de tensão
O mecanismo pelo qual o bruxismo chega à coluna vertebral segue uma progressão muscular bem documentada:
Quando os músculos da mastigação ficam em hiperatividade noturna constante, a tensão se propaga em cascata:
- O masseter e o temporal — os grandes músculos da mastigação — contraem-se com força muito acima do normal durante o bruxismo. Essa contração sustentada por horas gera microlesões musculares, ponto-gatilho e inflamação local.
- A tensão se propaga pelo osso hióide para o esternocleidomastóideo (SCM) e para o trapézio superior — os principais músculos do pescoço. Eles entram em espasmo compensatório.
- O espasmo do trapézio e do SCM altera o posicionamento da cabeça, gerando anteriorização — a cabeça avança para frente do eixo ideal da coluna cervical. Para cada centímetro de anteriorização, o peso efetivo da cabeça sobre a coluna cervical aumenta em aproximadamente 5 a 6 kg.
- Essa sobrecarga cervical crônica sobrecarrega as facetas articulares de C5, C6 e C7 — nível onde se concentram a maioria das hérnias e artrose cervical.
- Em casos de maior duração, a alteração postural se propaga para a coluna torácica (hipercifose compensatória) e eventualmente para a coluna lombar (hiperlordose compensatória).
O ciclo que se perpetua: A dor cervical causada pelo bruxismo perturba o sono, que por sua vez piora o bruxismo — e o bruxismo piora amplia a tensão muscular e a dor. Esse ciclo vicioso é um dos principais motivos pelos quais o tratamento isolado (apenas placa oclusal, sem abordar a coluna; ou apenas fisioterapia cervical, sem tratar a mandíbula) frequentemente resulta em melhora parcial e temporária.
4. O que a ciência confirma
A relação entre bruxismo e comprometimento cervical passou de observação clínica para evidência científica publicada. Os estudos mais relevantes incluem:
Estudo prospectivo de coorte publicado em 2024 no Bulletin of Faculty of Physical Therapy (Abd Elmesseh et al.) avaliou 67 pacientes com bruxismo e concluiu que a dor na articulação temporomandibular está correlacionada com comprometimento da propriocepção cervical — ou seja, pacientes com bruxismo apresentam alteração mensurável na função do pescoço, não apenas dor local na mandíbula. A correlação foi estatisticamente significativa para flexão cervical e trapézio.
Revisão publicada na Revista Portuguesa de Estomatologia, Medicina Dentária e Cirurgia Maxilofacial demonstrou que a hiperatividade muscular nos músculos da mastigação provoca alterações funcionais e estruturais da coluna cervical, com repercussões na musculatura cervical que culminam em alterações posturais, principalmente de cabeça e pescoço.
Estudo descritivo retrospectivo realizado com 305 pacientes e publicado em 2025 na Ciencia Latina avaliou a prevalência de bruxismo em pacientes com disfunções cervicais e torácicas. O resultado foi contundente: 100% dos sujeitos com bruxismo apresentaram alguma disfunção cervicotorácica, com maior incidência na junção cervicotorácica (T1 em 29,5% e C7 em 19,67%).
Investigação publicada em 2024 e referenciada pela Tua Saúde confirmou correlação entre bruxismo, disfunção da ATM e comprometimento cervical — reforçando que a queixa não se limita aos dentes e à mandíbula.
5. Sintomas que conectam bruxismo e coluna vertebral
O perfil clínico que sugere relação entre bruxismo e comprometimento cervical é bastante característico. Os sintomas costumam ser mais intensos pela manhã — justamente porque a hiperatividade muscular noturna acumulou horas de tensão sem interrupção:
Padrão diagnóstico sugestivo: Quando um paciente chega ao consultório com dor cervical crônica que não responde bem ao tratamento convencional, que piora nos períodos de maior estresse e que é acompanhada de cefaleia matinal e tensão mandibular, o bruxismo sempre entra na lista de suspeitos. A investigação da ATM e da função mandibular faz parte da avaliação completa da coluna cervical.
6. Fatores que agravam o bruxismo — e a dor na coluna
Eixo intestino-cérebro e bruxismo — mecanismo emergente:
A disbiose intestinal pode contribuir para o bruxismo ou piorá-lo por dois mecanismos simultâneos:
▸ Via nervo vago: sinais inflamatórios do intestino chegam diretamente ao tronco encefálico e perturbam os circuitos neurológicos que modulam a atividade muscular mandibular involuntária durante o sono.
▸ Via sistêmica: citocinas inflamatórias (IL-6, TNF-α) produzidas em resposta à disbiose cruzam a barreira hematoencefálica, desregulando as vias dopaminérgicas e serotoninérgicas do SNC — os mesmos sistemas que controlam o bruxismo. Não por acaso, medicamentos que alteram a dopamina (como antipsicóticos e antidepressivos) são causas conhecidas de bruxismo secundário.
▸ Via serotonina: 90% da serotonina é produzida no intestino. A disbiose reduz essa produção, comprometendo o sono e amplificando a ansiedade — dois dos principais gatilhos do bruxismo.
A evidência direta ainda é emergente — cada elo da cadeia tem suporte científico sólido, mas a cadeia completa ainda aguarda confirmação por ensaios clínicos específicos. É uma inferência forte com mecanismo biologicamente plausível, que integra a abordagem de especialistas que tratam o bruxismo de forma sistêmica.
7. Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico do bruxismo e de seu impacto na coluna exige a colaboração de diferentes especialistas. Do ponto de vista ortopédico e da coluna, a avaliação inclui:
Avaliação clínica ortopédica
Exame da postura global — especialmente a anteriorização da cabeça, o padrão de curvatura cervical e torácica e a presença de pontos-gatilho no trapézio, SCM e suboccipitais. A história clínica busca o padrão típico: dor matinal que melhora ao longo do dia, piora em períodos de estresse, cefaleia associada.
Avaliação odontológica
O dentista identifica os sinais clássicos do bruxismo: desgaste dentário, hipertrofia do masseter (o músculo fica visivelmente maior em pacientes com bruxismo crônico intenso), estalos na ATM, limitação da abertura bucal e sensibilidade dentária.
Polissonografia
Exame do sono que registra a atividade muscular da mandíbula durante a noite — o padrão ouro para diagnóstico definitivo do bruxismo do sono. Também identifica distúrbios associados como apneia, que frequentemente coexiste com o bruxismo.
Termografia médica
No contexto da coluna, a termografia pode identificar assimetrias térmicas na região cervical e do trapézio que refletem inflamação muscular ativa — auxiliando a mapear quais estruturas estão funcionalmente comprometidas e orientar o tratamento específico de cada área.
8. Tratamento: por que precisa ser multidisciplinar
O tratamento do bruxismo com comprometimento cervical é necessariamente multidisciplinar. Tratar apenas um dos componentes — só a mandíbula ou só o pescoço — raramente resolve o problema de forma duradoura, porque as duas estruturas estão funcionalmente integradas.
- Confecção da placa oclusal (noturna) — reduz a sobrecarga dentária e muscular durante o sono
- Ajuste oclusal quando indicado
- Toxina botulínica no masseter em casos severos — reduz a força de contração muscular
- Orientações sobre hábitos parafuncionais
- Avaliação e tratamento do comprometimento cervical e postural
- Identificação de hérnias ou artrose cervical associadas
- Bloqueios cervicais quando indicados
- Coordenação do plano multidisciplinar
- Liberação de pontos-gatilho no masseter, trapézio e suboccipitais
- Reeducação postural e correção da anteriorização da cabeça
- Exercícios de propriocepção cervical
- Técnicas de relaxamento muscular
- Manejo do estresse e da ansiedade — principais gatilhos do bruxismo
- TCC (terapia cognitivo-comportamental) com boa evidência para bruxismo em vigília
- Tratamento de distúrbios do sono associados
- Técnicas de mindfulness e relaxamento
A ordem importa: Em geral, o tratamento começa pela placa oclusal para reduzir a sobrecarga noturna. Paralelamente, inicia-se a fisioterapia cervical para desfazer os padrões de tensão muscular já instalados. O manejo do estresse e da ansiedade deve ser abordado desde o início — sem ele, qualquer melhora tende a ser temporária.
9. Perguntas Frequentes sobre Bruxismo e Coluna
Conclusão: a mandíbula e a coluna conversam — e precisam ser tratadas juntas
O bruxismo não é um problema exclusivamente dentário. É uma condição que, quando crônica, mobiliza toda a cadeia muscular do sistema crânio-cérvico-mandibular — e cujas consequências se manifestam na coluna vertebral de formas que muitas vezes não são associadas à sua origem real.
O paciente que acorda com pescoço duro, dor nos ombros e cefaleia — e que há meses faz fisioterapia sem resultado consistente — pode estar tratando o sintoma sem saber a causa. Da mesma forma, quem usa a placa oclusal mas ainda tem dor cervical persistente pode não estar abordando o comprometimento musculoesquelético já instalado no pescoço.
A mensagem central é: mandíbula e coluna fazem parte do mesmo sistema. O diagnóstico preciso e o tratamento eficaz precisam considerar os dois — preferencialmente em equipe multidisciplinar.
📚 Referências Científicas
- Abd Elmesseh OI, El-Sayyad MM, Karkousha RN. Correlation between bruxism and cervical function. Bulletin of Faculty of Physical Therapy. 2024;29(1):1–8. DOI: 10.1186/s43161-024-00205-7
- Castro V, Clemente M, Ramos A, Mendes JG, Pinho JC. A influência do bruxismo na posição postural da cabeça [The influence of bruxism in postural head position]. Revista Portuguesa de Estomatologia, Medicina Dentária e Cirurgia Maxilofacial. 2013;54(3):137–142. DOI: 10.1016/j.rpemd.2013.07.001
- Abril Mera TM, Baidal Icaza PM. Prevalencia de Bruxismo en Pacientes con Disfunciones Cervicales y Dorsales [Prevalence of Bruxism in Patients with Cervical and Dorsal Dysfunctions]. Ciencia Latina Revista Científica Multidisciplinar. 2025;9(4):6345–6356.
- Cesar GM, Tosato JP, Biasotto-Gonzalez DA. Correlation between occlusion and cervical posture in patients with bruxism. Parkell Online Learning Center / CDE World. 2009.
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